Foi John Steinbeck, o mesmo que chamava aos professores “caçadores de pirilampos” porque fazem nascer o conhecimento a partir dos pequenos pontos de luz que ensinam os seus alunos a descobrir, quem titulou desta forma um notável romance sobre um personagem ambíguo que, tendo perdido tudo, recomeça a sua ascensão na vida mas num percurso cheio de ínvias decisões e eticamente discutíveis oportunismos – decisões que a ele mesmo, no interior da consciência, causam angústia e perplexidade.
Peço-lhe de empréstimo o título para sintetizar em alguns pontos os porquês do meu particular descontentamento, nesta tarde em que escrevo, de um inverno marcado por muitos outros descontentamentos que respeito. Descontentamento o meu tão legítimo quanto outros, a que tenho direito e que não quero nem devo silenciar, cidadã que sou e lutei para ser, por um país democrático sem intervalos, profissional que sou e fui do seriíssimo ofício de ensinar, que estudei, estudo e investigo – porque requer saber, esta coisa de ensinar de que tantos gostam de falar no espaço público, quase sempre opinando no plano do puro senso comum. Ofício em que, como tantos outros da comunidade a que me honro de pertencer, também iniciei, acompanhei e supervisionei muitos outros, tal como outros também me ensinaram e ainda ensinam a especificidade e a complexidade de ser professor.
Falo-vos pois dos professores. E daquilo que se tem chamado a sua luta contra um alegadamente persecutório modelo de avaliação do desempenho docente, isto é, do acto de ensinar que nos caracteriza e distingue como profissao na malha complexa do tecido social dos nossos dias. Não falo dos professores de há 50 ou 100 anos, professores esses de outro momento histórico, adequados ao seu tempo, portadores de um saber ao tempo restrito a poucos, e por isso muito valorizado socialmente, que distribuiam ex cathedra, uns muito bem, outros nem tanto, a um grupo razoavelmente restrito, homogéneo e predisposto, por pertença e cultura, a acolher os seus ensinamentos. Nem vos falo, como se tornou moda nos debates entre educadores de bancada, de quanto “no meu tempo” eu e os meus parceiros da minoria mais ou menos brilhante e razoavelmente selecccionada, que chegava aos estudos mais adiantados, e que éramos , no meu 5º ano do então ensino liceal, cerca de 5% do respectivo escalão etário. Apesar de muitos, dentro e fora da escola se obstinarem em não o ver, o mundo mudou, a escola é que nem por isso – por isso mesmo se tornou tão mais difícil e complexo ser professor. Mas também mais valioso e mais indispensável socialmente. Falo da dificuldade de ser professor da escola pública de hoje e de amanhã, a de todos e para todos, a que por isso mesmo se tornou bem mais difícil de fazer funcionar bem, isto é, garantindo que o superior direito de todos a aprender é concretizado, através de uma acção aprofundada, modificada e mais eficaz de todos nós, os professores, os gestores, os formadores, os académicos.
Pois nasce-me daqui o pesado descontentamento de que aqui falo:
De ver que os professores reclamam – e fazem-no no uso do direito democrático de se manifestarem , o mesmo que eu uso aqui – contra uma avaliação que pela primeira vez incide sobre o cerne do seu desempenho , isto é – a sua acção de ensinar.
De ouvir afirmar que sempre foram avaliados e aceitaram ser avaliados, que rejeitam este, mas aceitam outro “modelo”, desde que não este. Creio que o dizem de boa fé mas não corresponde à história da avaliação de professores amplamente documentada. Nunca , em nenhum dos regimes de avaliação, houve avaliação de desempenho docente , observado, supervisionado e avaliado. Houve sim regimes que utilizaram outros referentes (formação, tempo de serviço, relatório de actividades, por exemplo). Como também é conhecida por todos a relutância dominante na classe, por razões de cultura sedimentada em muitas décadas, de abrir mão do carácter individual e privado da aula, aquilo que a tipologia de Andy Hargreaves, um conceituado investigador canadiano, descreve como uma cultura profissional baseada no individualismo. Esta característica é uma resultante de múltiplos factores, não um “crime” da classe. Mas bloqueia e tem inviabilizado muita da necessária melhoria, que cada vez mais se sabe requerer mais trabalho colaborativo entre pares, mais supervisão e regulação. Nos resultados do famoso TIMSS também consta que a taxa de trabalho docente supervisionado, relativamente aos alunos de Matemática e Ciências que foram sujeitos do estudo, era de 4% em Portugal para uma média de 60% nos restantes países. A prática da supervisão com avaliação de desempenho da acção de ensinar só existe entre nós no período de estágio ( o que corresponderá aos 4% identificados acima) e ainda assim tolerada numa grande maioria de casos com grande sofrimento, apenas mitigado pela ideia de que depois nunca mais acontecerá. . O problema novo da avaliação de desempenho que agora se inicia é que justamente reverte essa lógica. Daí a violência e a aparente adesão maciça à sua contestação
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