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Quinta-feira, Abril 8, 2010

PARA AQUELES QUE DIZEM QUE PORTUGAL AGORA ESTÁ PIOR

por Pedro Sousa em 8 de Abril de 2010

em País

Eis alguns retratos de Portugal pela pena corrosiva de Guerra Junqueiro nas “Anotações” anexas à sua obra “Pátria” publicada em 1896:

“ (…Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro”; “Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País”; “A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas”;

“Dois partidos (…) sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, (…)”;

”Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio”; “Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante, o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários”;

“E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares [...] teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís (…).”

Pelo que se pode ler, e do resto que não coube nesta coluna, conclui-se que o drama nacional não é episódico. É idiossincrático.

José Luis Seixas

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Temos de trabalhar mais

por Pedro Sousa em 8 de Abril de 2010

em País

Os números não enganam: os portugueses trabalham menos do que os europeus, mas, mesmo assim, têm recebido aumentos de salários superiores à média europeia. É assim na terra dos ‘direitos adquiridos.

I. Uma das coisas que mais choca numa certa mentalidade portuguesa, mantida pela cultura dos ‘direitos adquiridos’, é aquela estranha ideia de que o dinheiro não resulta do trabalho. Ao longo das últimas décadas, os ‘tugas desligaram a ideia de ‘riqueza’ da ideia de ‘trabalho’. Tenho sempre a impressão de que muita gente acha que o dinheiro é um acto administrativo. Isto é, muita gente acha que “eles” (o governo) tem uma torneira mágica, e que basta abrir administrativamente essa torneira para haver aumento de salários.

II. Só há uma maneira de sairmos da crise: temos de trabalhar mais. Os números não enganam. Os portugueses trabalham 38.8 horas por semana, quando a média europeia é de 40. Os portugueses colocaram Portugal a crescer apenas 1,45% (entre 2004 e 2007), enquanto que a média europeia de crescimento foi de 2,63%. Mas, apesar disto, os portugueses receberam um aumento real de salários de 3,9%, enquanto que o aumento real na Europa foi só de 2,1%. Há aqui muita coisa que não está certa nas contas portuguesas.

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