Os fechos dos SAP…

por Pedro Sousa em Janeiro 4, 2008

[...]Os serviços que fecharam, como muito bem tem explicado incessantemente o senhor ministro da saúde, têm vindo a perder os seus utentes regularmente, mesmo perante a continuada persistência dos serviços do Estado no local. Convém lembrar isto, que é para não se dizer no futuro que foi depois de os serviços do Estado desaparecerem que os utentes começaram a fugir direitos a Almada.

Há, depois, a questão [...]: as pessoas que vivem nos subúrbios do litoral, e aqui falo dos subúrbios de Lisboa. Onde moro havia um SAP (Serviço de Atendimento Permanente)  a que eu recorria uma vez por mês. Normalmente chegava lá à meia noite e era atendido 5 horas depois (estava apenas com uma crise de asma, podia esperar). Quando estava de férias em Vila Real de Santo António chegava ao SAP e via um médico e uma enfermeira a jogar gamão, jogo que eu depois aprendi a jogar com eles enquanto tomava a minha dose de oxigénio.

Tudo isto é naturalíssimo e tem fixado as populações em Vila Real de Santo António. O que é estranho é que o contraste entre os péssimos serviços do Estado de Almada e os maravilhosos serviços de Vila Real de Santo António não tenham “desfixado” as populações de Almada, onde a minha mãe e o meu pai, por exemplo, continuaram a viver até há 6 anos atrás, depois de terem fugido do SAP de Vila Real de Santo António assim que casaram.

[...] mais grave, para mim, que pensar no Estado como um  promotor de movimentos de populações no território nacional por questões esotéricas como a da ”soberania” (a Suécia ou o Canadá, que têm quase toda a população encostada à periferia dos seus territórios, são menos “soberanos” por causa disso?), é [...outros] não perceberem porque é que as pessoas se vão embora das terras do interior português em direcção ao litoral e, principalmente, às duas grandes metrópoles portuguesas.

Não é uma questão que mistura atraso económico com ajuste estrutural necessário e benéfico (vinte e tal por cento da população activa na agricultura há poucas décadas atrás). Não é uma vontade, um cálculo deliberado e pensado. Não é um esforço e um sacrifício. Não pode ser um acto cultural e um alívio. Nunca será um movimento consciente e muito desejado por gerações. Não é, não poderá jamais ser, um prazer e um desejo tornado realidade. Não é nada disto nem muitas outras coisas que agora não estou para pensar.

É apenas um fenómeno que o Estado, erradamente, não soube evitar através da manutenção escolas abertas com 3 alunos por ano (e turmas de 35 em Lisboa) e SAPs abertos com três utentes por médico por dia (e dezenas e dezenas em Almada).”

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