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Sexta-feira, Agosto 17, 2007

A Joana e a Madeleine

por Pedro Sousa em 17 de Agosto de 2007

em Com a devida vénia

A Joana era algarvia, a Madeleine era inglesa. A Joana era uma menina trigueira e mal vestida, a Madeleine era loura e bonita. A Joana não sabia o que eram férias, a Madeleine fazia férias na terra da Joana. A mãe da Joana era uma trabalhadora doméstica, a mãe da Madeleine é médica. A Joana tinha um padrasto, a Madeleine tinha uns pais exemplares. As duas crianças desapareceram de locais que ficam a meia dúzia de quilómetros de distância, mas separados por um imenso mundo.

No caso da Joana ninguém colocou a hipótese de rapto, da mesma forma que no caso da Madeleine ninguém imaginou o homicídio como hipótese provável. Olhava-se para a mãe da Joana e percebia-se logo uma assassina, olha-se para os país da Madeleine e percebe-se logo o sofrimento de pais cuja filha foi roubada. A mãe da Joana queixou-se de ter sido alvo de agressões por parte da PJ que alguém justificou com uma queda, a mãe da Madeleine tem direito a reuniões semanais para ouvir explicações da PJ e quando algo não lhe agrada exige a antecipação da reunião.

Se à mãe da Madeleine faltasse uma mão seria deficiente física, a mãe da Joana seria maneta.

in jumento.blogspot.com

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O VERDADEIRO CEGO

por Pedro Sousa em 17 de Agosto de 2007

em Estado de Espírito

Numa cerimónia religiosa a que, infelizmente*, tive de assistir durante a tarde de hoje, o pároco em questão disse algo que achei extremamente interessante. Apesar de ser uma ideia comum, foi colocado de forma que, no momento, me pôs a pensar. Disse o mesmo: “Aquele que apenas vê o material e mensurável é, na realidade, cego”.

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Efectivamente, cada vez que passamos por uma situação mais difícil, começamos a pensar naquilo a que nos podemos e/ou devemos agarrar e acabamos por verificar que é o imaterial que melhor nos segura nessas situações. E não falo de questões religiosas (ainda que não as exclua), mas as questões da vivência, dos amigos, da família.

Há que concordar que quem não vê esta realidade imaterial corre o risco de, de um momento para o outro, se ver perdido, sem nada, sem referências… cego. Sem ver o mundo, enterrando-se num lamento de quem acha que não tem nada.

Mesmo os que possam ter pouco para ver de mensurável e material, podem ter uma extraordinária visão sobre o que os rodeia.

E essa cegueira poderá ser a pior de todas!

*nota: o termo “infelizmente” não tem a ver com o facto de ter de ir a uma cerimónia religiosa, mas sim a razão que me levou a esta em particular. Uma história quase macabra… o falecimento de uma jovem mãe, logo após ter dado à luz gémeos.

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