Lendo por aí…

por Pedro Sousa em 27 de Junho de 2010

em Com a devida vénia,País

Espanha está em estado de choque por causa da morte de 12 jovens que juntamente com mais 20 amigos resolveram ignorar uma proibição de atravessar a linha de um comboio na madrugada de quinta-feira quando se dirigiam para uma festa na praia de Castelldefels, na Catalunha. O acto foi de pura irresponsabilidade. De amnésia total. Assim que saltaram da carruagem, seguiram em frente pelos carris e quando a maioria se apercebeu do perigo já era tarde de mais. Do outro lado circulava um comboio rápido que apitou e tentou travar. De nada serviu. Houve 12 que tiveram morte imediata e mais 13 que tiveram de ser internados com traumatismos vários. Mal se soube desta tragédia, apareceram logo vários personagens a tentar encontrar um culpado. Eram sobretudo testemunhas do que se tinha passado, mas também havia quem apenas quisesse aparecer na televisão ou nos jornais para debitar uma sentença. O mais curioso é que a culpa deste acto de inconsciência teria de ser de algo ou de alguém que não do grupo que o praticou. Surgiram assim as mais variadas interpretações para o sucedido: a estação não estava bem iluminada; a passagem subterrânea é muito estreita e tinha muita gente; não havia seguranças para controlar os passageiros; os altifalantes que avisam sobre a interdição de atravessar a linha do combóio estavam desligados; a noite era de festa e os jovens já estavam bêbados; a estação tem duas linhas de comboio e não deveria ter, etc., etc. Aos poucos e poucos, todos estes argumentos foram perdendo peso porque os inquéritos preliminares vieram confirmar que tudo estava a funcionar de forma correcta e que a única explicação para o acidente fora a imprudência do grupo. Imprudência? Sim, imprudência. Apenas e só, não há volta a dar. Agora, há que consolar os pais que perderam os filhos que saíram de casa naquela noite para se divertirem e reflectir sobre o que é a nossa responsabilidade e a dos outros.

Conto aqui este caso porque todos sofremos com os eventuais riscos que correm os nossos filhos quando não estamos por perto. Educar é uma tarefa difícil. É como construir uma casa sólida, resistente a intempéries e terramotos. Um ser humano responsável é aquele que nos momentos de maior descontrolo sabe o que quer para si próprio e para os outros. É aquele que é capaz de dizer não e de indicar o caminho certo quando vê que todos se dirigem para o abismo. É o que não se queixa, nem procura culpados, quando sabe que fez mal. É aquele que se contenta com o pode ter. É o que sabe que o respeito pelos demais começa por algo tão simples como em não atirar um papel para o chão. Saberemos nós, hoje em dia, dar estes exemplos?

Maria de Lurde Vale – DN

Anterior:

Seguinte: