From the daily archives:

Terça-feira, Março 2, 2010

No prefácio que fez a uma obra de Mário Bernardes Pereira interrogava-se Aquilino, muito provavelmente sabedor das coisas de Arouca, sobre os motivos que, naqueles anos de penúria, levavam uma multidão faminta e sedenta de riqueza a remexer serras e ribeiros de Portugal, sugerindo mesmo que se buscassem as analogias com a corrida ao ouro, que cem anos antes, enxameara com outras multidões uma distante Califórnia

[...]

Conduzir a tese a Arouca era pois importante – não à Arouca moderna, atractiva e acolhedora, crescentemente descoberta pelo turismo massempre lutando por melhores acessibilidades, surpreendentemente ainda perto e longe do Porto, mas – como em filme de época – levando a uma Arouca “em valores correntes dos anos 40”, o mais possível ao sabor do momento em que as coisas se passaram, de predomínio agrícola, pronunciada clivagem social e forte emigração que a todos atingia e em que, de entre as vinte freguesias que, desde 1917, formavam o concelho, era possível destacar seis “freguesias mineiras”.

[...]

Examinei as desenvolvidas teses – uma das quais, e de forma pioneira, já focara Arouca – sobre as notícias e efeitos internos da corrida à riqueza numa sociedade de cunho rural, pouco habituada a fortunas fáceis e inesperadas e já esquecida, por superveniência de crises, da breve experiência de novo-riquismo volframista no termo da I Guerra. Uma reflexão neste ponto sobre o que existia e a perspectiva estabelecida para o trabalho, levou-me a concluir que me ficara campo livre e independente para poder prosseguir na trilha idealizada. Gizado pois um plano, cobrindo as fontes documentais previstas e disponíveis, estabelecendo as acções de campo, abalei para a austeridade das terras altas e dos vales profundos do Paiva, do Paivó e seus afluentes, numa verdadeira etnografia de emergência – dado o sucessivo apagamento no tempo de muitos que poderiam contar muito e a dificuldade de procurar outros fora de Arouca.

[...]

O mesmo apelo à conservação se faz para os registos das Juntas de Freguesia, cujo valor surpreende por vezes os próprios autarcas e em que, além dos conteúdos habituais, surgem verdadeiras preciosidades. Uma das várias encontradas consiste na afirmação do secretário de Alvarenga que, em 1914, personaliza a página de abertura do competente livro, com caligrafia, assinatura e – detalhe inédito – com a aposição da sua própria fotografia, que aqui se mostra não como mera curiosidade mas como sinal de entendimento da mensagem subjacente e que, um século depois, aqui se cumpre: “ser lembrado”.

[...]

Um último capítulo estabelece o já referido ponto de situação quanto ao estado de “memória e esquecimento” na sociedade arouquense. Os inquéritos realizados nas gerações “dos filhos” e “dos netos” acabaram por demonstrar que – mesmo no caso mais afastado das zonas mineiras – o valor da transmissão oral, a nível familiar ou em círculos de amizade próximos, prevalece sobre o conhecimento adquirido na escola ou através dos meios de comunicação social, o que demonstra a subsistência – até ao momento – de uma memória social valorizada e ainda actuante.

mais detalhe aqui

{ 0 comentários }