A crise anda a afectar-me. Tento todos os dias não me sentir perseguido, não cair no desânimo, não me deixar ir abaixo.
No entanto, todos os dias, quando deito os meus filhos, olho para eles e pergunto para dentro “O que seria de nós se eu perdesse o emprego?”. A resposta a esta pergunta, que está fixada no meu inconsciente, mas que sopra de quando em vez ao meu ouvido, não é nada agradável e é fermento para o eventual desânimo.
Tento imaginar o que sentem os milhares de pais que têm perdido o emprego e que todos os dias, quando olham para os seus filhos, temem pelo seu futuro. Ou pior ainda, temem pelo seu presente. A resistência tem de ser do tamanho do mundo. A crença tem de ser inabalável. Se assim não for, não sei como aguentam.
A mim, só a ideia de que isso possa acontecer, aterroriza-me. Assusta-me. Amedronta-me.
Isso dá-me ainda mais força para, todos os dias, às 7.20h acordar com vontade de trabalhar mais e melhor e contribuir para a solidificação e crescimento da empresa onde trabalho. Se não começar por mim, por onde irá começar?
Tenho vergonha de ser quem sou. Tenho vergonha de ser velho.
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É fo**do não é….
Pelo menos assim entendes porque o povo anda tão irritado.
Porque é que dizes que o Povo anda irritado?
Caro Pedro Sousa:
Sem querer falar pelo sr F, eu creio que o povo anda irritado por vários motivos:
- O facto de poder perder o emprego a qualquer momento, por mais dedicação e esforço que coloquem na realização das suas tarefas diárias;
- O facto de ver os empresários e o poder político fazerem das bases – isto é, o povo que trabalha e vota nos politicos – como os bodes expiatórios da crise em que vivemos. Os empresários aproveitam a crise para despedir pessoas, alegando a falta de verba para pagar salários, enquanto que o poder politico lança o discurso de que alguns sectores laborais têm demasiados privilégios – veja-se o caso dos professores – assim de que os portugueses vivem acima das suas possibilidades.
Resultado? “Guerra” entre sectores laborais, “guerra” entre portugueses, “guerra” entre classes sociais. É por isso que o povo português anda tão irritado. Está cansado de fazer sacrificios para que os mesmos possam manter privilégios que não têm razão de ser.
Não vejo o povo irritado… desanimado, talvez, agora irritado não. Se o Povo andasse irritado acho que isso se veria nas consultas de opinião.
De qualquer forma, quero mais uma vez dizer que essa teoria de que os empresários são parte do problema, não me convence. Os empresários (que na sua maioria são gente trabalhadora e dedicada) são parte da solução.
Que alguns sectores têm previlégios a mais… não duvido. Até acho que essa moralização diminui a eventual irritabilidade das pessoas, porque o que irritava era ter portugueses de 1ª e de 2ª no tratamento com o Estado.
Para finalizar, não estou a identificar onde está a guerra entre classes. O Marx voltou?
Caro Pedro…
Não duvido que alguns empresários são parte da solução. Mas muitos outros são parte do problema. Falámos das empresas com gestões ruinosas, que investem mais em carros topos de gama do que nas fábricas ou nas empresas, que ao minimo sinal de crise encerram e vão abrir portas noutro lado. E claro, falo do sector financeiro, cujo capital é na sua grande maioria composto por privados e que foi um dos motivos pelo estalar desta crise.
Pegando na sua afirmação:
“Que alguns sectores têm previlégios a mais… não duvido. Até acho que essa moralização diminui a eventual irritabilidade das pessoas, porque o que irritava era ter portugueses de 1ª e de 2ª no tratamento com o Estado.”
Concordo com esta afirmação, mas penso que a moralização devia chegar a todos não se restringindo apenas a certos sectores sociais. E até acho que a moralização deveria começar pelo altos cargos do sector público, na qual se deveria reduzir subsidios e outras mordomias, cortar em cargos superfluos (para quê tanto assessor?) e sobretudo, acabar com as cunhas e compadrios, que é o grande cancro deste Estado. E com isto chegámos a outra afirmação sua que diz:
“Para finalizar, não estou a identificar onde está a guerra entre classes. O Marx voltou?”
Não, Marx não voltou. Mas se hoje acordasse e visse o mundo económico em que vivemos hoje, acredito que manteria o seu discurso pois ainda está muito actual. Reconheço que a expressão “guerra de classes” não corresponde inteiramente á verdade… mas as desigualdades entre Portugueses tornam-se cada vez mais evidentes. Quer seja no sector público… ou no sector privado. Embora no imaginário de muita gente se diga que o sector público é que é bom – e rejubile em segredo quando um Sócrates anuncia medidas que ataque o funcionalismo público.