Miguel Sousa Tavares dixit:
A PSP, chamada por alguns vulgares cidadãos pais de família, no uso de um vulgar direito de cidadania, entendeu apreender alguns exemplares de um livro exposto chamado “Pornocracia” — de que ninguém tinha ouvido falar, mas que tinha a particularidade de reproduzir na capa o célebre quadro “A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet, um grande plano realista de um sexo feminino. Ai, Jesus, o que os polícias foram fazer! Confundiram uma obra de arte com pornografia, atentaram contra a liberdade do editor, do livreiro e dos organizadores da feira, que outra coisa não visavam do que divulgar a arte e a literatura! O estimável jornal “Público”, por exemplo, sempre na vanguarda do politicamente correcto, fez disto um caso gravíssimo e, para mostrar a sua solidariedade com mais esta ameaça à liberdade, deu aos leitores meia página com o Courbet. E, no dia seguinte, claro, a PSP pedia desculpas por ter confundido um “nu artístico” com pornografia.
Eu, por acaso, até gosto do quadro e exactamente porque ele é chocante e perturbante. Não é, de forma alguma, um simples nu artístico e foi pintado de encomenda para o não ser: não tem nada que ver, por exemplo, com “La Maja Desnuda” do Goya ou as senhoras anafadas do Rubens. Está na zona indefinível de fronteira entre o erotismo e a pornografia, como as fotografias de Mapplethorpe, dependendo da sensibilidade e da abordagem de cada um. É uma pintura para ser vista no enquadramento que lhe cabe (o museu onde está ou uma exposição onde as pessoas sabem ao que vão), não para ser reproduzida, por exemplo, num cartaz de rua ou num anúncio de televisão. Ora, uma feira é um local público e, tanto quanto sei, quem se queixou foram pais, incomodados com a sua exposição a crianças. E eu acho que eles têm, pelo menos, razões que merecem ser ponderadas, por bom senso e bom-gosto. A desculpa da arte ou do erotismo não serve para tudo. As coisas têm o seu contexto e a sua liberdade própria. A liberdade de atirar o nu explícito de Courbet à cara de quem passa e o não procurou, de um pai indefeso que passeia uma criança pela mão numa inocente feira de livros, é uma falsa liberdade. Não fosse este novo saloismo de termos o terror de não ser ‘modernos’, e perceberíamos que a liberdade não consiste em fazer tudo o que se quer, quando isso agride os outros. Mesmo que aquilo que agride os outros seja, para nós, perfeitamente aceitável. Só os ignorantes é que acham que a liberdade é fácil de gerir.
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Meu Deus! Tanto barulho, tanta algazarra, tanta opinião contraditória, não tanto por causa de uma imagem/pintura/obra de arte, mas simplesmente porque a PSP de Braga mandou retirar os exemplares de um livro, exposto em lugar público, tão público como o é uma feira do livro.
É até natural que nessa feira houvesse livros contendo no seu interior imagens até mais polémicas ou agressivas, mas essas não estariam escancaradamente expostas como aquela que preenchia a capa desse livro.
De todos os comentários que li, sobre esta polémica tão exaustivamente empolada pela comunicação social, o que achei mais equilibrado, sensato e nada puritano foi o de Miguel Sousa Tavares que teve a coragem de ir contra o politicamente correcto e distinguir sabiamente um conceito de liberdade que anda muito arredado de certos paladinos de uma pseudo liberdade em nome da qual tudo é possível, tudo é permitido, tudo é defendido.
Gostaria que os defensores dessa “liberdade” se colocassem no papel e no lugar dos agentes da PSP pressionados pelas reclamações de um grupo de pais, reclamações aliás, perfeitamente naturais e compreensíveis, face ao incómodo que tal capa representava para menores. E quando esses menores são os próprios filhos, que direito haverá em nome da “liberdade” de expressão artística, ou de qualquer outra, agredir a sensibilidade dessas crianças com imagens tão despudoradamente expostas?
Que argumentos apresentariam a esses pais, ou que atitudes tomariam, se estivessem no lugar dos agentes da PSP, esses tais paladinos da “liberdade”?
É que a liberdade se é fácil de ser invocada, muitas vezes, completamente descontextualizada, nem sempre será fácil de ser gerida, como muito bem conclui Sousa Tavares.
José Cerca