O Governo fixou finalmente, sob a forma de proposta de lei, os princípios a que irá sujeitar a reorganização administrativa territorial autárquica.
De imediato, uma confirmação: o Governo diz que essas regras serão obrigatórias para as freguesias; porém, para os municípios elas serão meramente “incentivadoras”. Isto é, o Governo pretende dar cumprimento ao compromisso assumido com a troika de reduzir o número de autarquias sem que a configuração ou número de municípios seja sequer beliscado.
Ao mesmo tempo que o Governo dispensa os municípios do esforço de redução do número de autarquias, lança contudo sobre estes o ónus da extinção de freguesias, ao admitir a reiterada postergação dos princípios que a própria lei prescreve. Exemplificando, a lei prevê que o “índice de desenvolvimento social” de uma freguesia, a par de outros critérios, a possa fazer erigir a “pólo de atração das freguesias contíguas”. Porém, no mesmo artigo, a lei prevê que esse mesmo critério pode originar solução diferente. Ou seja, um mesmo critério pode conduzir a um resultado ou ao seu oposto. Enfim, princípios…
Face a tão indisfarçáveis hesitações e contradições, Miguel Relvas, ministro responsável pela proposta, parece ter apostado em dar corpo a uma das máximas de Grouxo Marx: “Estes são os meus princípios. Se não gostarem, eu tenho outros.”
Outro exemplo vê-se quando a lei define o conceito de “lugar urbano” e retira desse conceito consequências para a extinção de freguesias. No entanto, essa mesma lei prevê que as assembleias municipais possam considerar como não situadas nos lugares urbanos do município as freguesias que, como tal, a própria lei considera. Ou seja, a lei fixa princípios mas é a própria lei que admite que eles sejam derrogados pelo órgão deliberativo municipal, colocando sobre este o ónus dessa opção. Sob a pretensa capa de um pio respeito pela autonomia municipal quer-se, na verdade, lançar sobre os municípios toda a responsabilidade pela extinção de freguesias. Eis uma cínica previsão legislativa: se um município seguir os critérios previstos na lei para extinção de freguesias será, pura e simplesmente, porque não decidiu derrogá-los. Como tal, será sua a responsabilidade da extinção. Se não os seguir e optar por derrogá-los, será igualmente sua a responsabilidade. Daí o Governo lava as mãos.
Então o que sucederá quando os municípios se recusarem a extinguir freguesias cuja subsistência é querida pelas respetivas populações? Nem aí o Governo assumirá as suas responsabilidades, propondo soluções. É que a proposta governamental cria uma entidade, que designa por “unidade técnica” (a assepsia da “técnica” sempre conveio a quem falece a convicção política ou sobra a habilidade), à qual atribui a incumbência de apresentar “propostas concretas de reorganização administrativa do território das freguesias”. Pasme-se, pois: nem aqui o Governo se compromete com a apresentação ao Parlamento de qualquer proposta concreta.
Compreende-se, contudo, a obsessão do Governo em desaparecer da fotografia: é que sabe bem que, mais cedo do que tarde, será percetível por todos a iniquidade que irá resultar da fixação dos valores percentuais para a extinção de freguesias, dentro de cada município, que impôs na lei. É esta solução de regra e esquadro ou, melhor dito, de tesoura e calculadora, feita à revelia das populações, que o PS não pode avalizar. E que, no debate parlamentar agendado para hoje, não deixará de denunciar.
Filipe Neto Brandão
Deputado GP/PS
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ora vivam!
cá estamos todos de novo!!
só me apetece dizer que esta técnica de tesoura e calculadora que é muito , muito má!!
Penso, isso sim, que para bem do meu bairro, a minha freguesia devia ser dividida em duas. Seria mais fácila chegar até aos problemas e depois contemplá-los de perto. Isso sim , seria o futuro!!
O PS tem memória de minhoca!!!
Lembraste do que defendeste qd o sócrates encerrou a escola do meu bairro??
Seria trágico lembrar-te.!!
um abraço
inquieto
Caro inquieto,
Não percebo o que tem a extinção de freguesias a ver com o encerramento de escolas. O encerramento destas resulta, geralmente, na concentração dos alunos em escolas com melhores condições, garantindo igualdade a todas as crianças na educação recebida.
Encerrar freguesias é muito diferente. Principalmente fazê-lo sem se antever qualquer beneficio. Basta ler o Livro Verde para a Administração Local para perceber que tudo o que são breves referencias a eventuais benefícios são umas frases soltas, teóricas sem qualquer perspectiva de melhorar seja o que for (ressalvo apenas que esse documento aponta bons caminhos para a reformulação da lei eleitoral autárquica).
Não me parece, pois, que sejam comparáveis. E fazê-lo de forma matemática e tão idiota que nem merece útero epíteto.
viva!
carissímo!!
não me expressei bem!
o que eu queria era falar do raid do Seguro pelo e a favor do interior!!
aí é que eu metia as escolas e os tribunais com os respectivos encerramentos.
aí sim até as minhocas ganham memória!
quanto ao resto …
o PS é “exemplar”!!!
um abraço
inquieto
Na perspectiva socialista, continue-se como está que está muito bem!
Caro Fernando,
Mexer por mexer, não vale a pena. Sim, se é para escolher entre a reforma prevista (que tem nada de reforma, é apenas um jargão para a reducao de freguesias) e o sistema actual, prefiro o atual.
Basta ler o documento para perceber que a única coisa concreta que tem é a reducao de freguesias, um dos mais importantes pilares da comunidade, nomeadamente no interior cada vez mais desertificado. O facto da reforma ser efectuada de forma matemática, mostra bem que não é uma reforma para os cidadãos.
A ser feita, devia então olhar para as diversas representações do Estado, começando nos deputados, passando pelas Câmaras e vindo às freguesias. E, na minha opinião, passando pelo processo de regionalização. Assim, é só mexer com os mais fracos, porque com os outros não se querem meter… Cobardia política, é o que é